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10 Anos & Outros Sambas - Moacyr Luz e Samba do Tr

10 Anos & Outros Sambas - Moacyr Luz e Samba do Tr

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SAMBA DO TRABALHADOR FESTEJA DEZ ANOS COM TERCEIRO DISCO


No mês em que completou dez anos, o Samba do Trabalhador volta a fazer história lançando seu terceiro CD. É a primeira vez que uma roda de samba grava um disco com músicas autorais e inéditas. O álbum "Moacyr Luz & Samba do Trabalhador - 10 anos & outros sambas" tem 12 faixas, sendo que nove nunca haviam sido gravadas. Moa é autor ou coautor de 11 das 12 músicas. 

 

É um álbum que faz o ouvinte se sentir colado à roda, como se estivesse sob a sombra da caramboleira do Renascença Clube, pertinho dos músicos.  E os cantores do grupo se revezam ao microfone, como é feito toda segunda. O disco traz músicas que dão melodia ao sincretismo religioso tão presente no samba e na vida de uns brasileiros, fala da boemia e de temas atuais, como a violência. Tem homenagem à Dona Ivone Lara, canta a esperança e o amor, tema que sempre caminhou com o gênero musical.

 

Neste CD, o Samba do Trabalhador reforça sua identidade, misturando as receitas dos dois discos anteriores. O primeiro, de 2005, traz músicas de sambistas consagrados, como Candeia, e dos que ajudaram a criar a roda no Renascença Clube: Luiz Carlos da Vila, Éfson, Toninho Geraes, Zé Luiz do Império, Wanderley Monteiro, entre outros. 

 

O segundo, de 2012, foi feito com músicas do repertório de Moacyr Luz. Sambas dele e feitos com seus parceiros. Apenas uma era inédita, a "Estranhou o quê?".

 

Já o terceiro álbum tem a caneta da antiga e da nova safra dos compositores. Há músicas dos mestres Paulo César Pinheiro, Luiz Carlos da Vila e Sereno; de artistas com forte identificação com o Samba do Trabalhador (Toninho Geraes, que participou dos dois primeiros discos, e João Martins, que chegou a tocar com o grupo em ocasiões especiais); de músicos da roda (Alvaro Santos e Mingo Silva); e de talentos que chegam para aumentar a família Samba do Trabalhador (Gusttavo Clarão e Anderson Baiaco).

 

O CD começa com "A reza do samba", de Moacyr e Clarão. A música exalta o movimento cultural que está completando dez anos. Diz que "Segunda-feira é das almas/É bom também de sambar/ Tem uma vela pro santo/A outra é para vadiar" e conclui: "Firma o ponto batuqueiro/Samba do Trabalhador, um quilombo brasileiro".

 

O enredo da faixa 2 é facilmente decifrado pelo nome da música: "Amor, o dono do meu caminho". A poesia que prega "O amor, raio na tempestade/O amor, voo de passarinho/O amor, vício da mocidade" é de Moacyr e Sereno. Esta é a primeira faixa do disco com participação especial. Nela, Allan Abbadia toca o seu trombone com a maestria.

 

"A cria do samba", parceria inédita de Alvaro, Mingo e Moa, passeia pelo universo do sambista. Está na faixa 3: "Sou subúrbio às pampas, sim/Da domingueira/ Andar descalço, cinfrim/Zé Pereira/ Sou baticum, botequim/Abrideira, meu santo cuida de mim".’

 

A faixa 4, assinada só por Moacyr Luz, coloca folclore e magia na roda. "Camarão vegê", que tem a participação especial do acordeon de Bebe Kramer, ensina: "Em Juru, jajá, camarão vegê/Um vai lá buscar/Que eu faço comer/Só não pode é mentir, pescador/Pra tu não virar saci pererê".

 

Nei Lopes e Moa compuseram "Na vaselina", na faixa 5. O samba, levado com graciosa melodia, fala da violência do dia a dia e apresenta a voz de quem não se rende ao medo: "Mas eu não sou ‘psi’, nem vou ficar refém/ De Roma ao Haiti está tudo assim também/ Não há cidade sacro-santa em mais nenhum lugar/ Pode reparar".

 

"Na vaselina" também foi gravada com o trombone de Allan Addadia.

"Se parasse de chover", de Mingo e Baiaco, na faixa 6, conta o lamento de um bamba. Ele pede a São Pedro que a chuva pare de cair para que, assim, possa encontrar sua amada.

 

"Joia rara" é uma das mais bonitas deste trabalho. Na faixa 7, a canção, de Moacyr e Sereno, presta tributo a Dona Ivone Lara, a grande cantora e compositora. E essa música conta ainda com a gaita do mestre Rildo Hora.

 

A faixa 8 traz a releitura de "Samba de fato", de Moa e Paulo César Pinheiro. A música foi gravada em 1998, no CD "Mandigueiro", de Moacyr Luz. Agora, coube à bela voz de Gabriel exaltar o prazer despertado pelo samba: "Que eu gosto de samba é fato/E um samba de fato eu gosto assim/Na faca e no prato/Na mão de um mulato/No couro de gato que faz um bom tamborim".

 

A segunda regravação está na faixa 9, "Anjo vagabundo", de Moa e Luiz Carlos da Vila, que Simone Moreno gravou em 1997, no CD "Manda me chamar". É poesia e lição: "Errar e pedir perdão/ É fugir da escuridão/ Pela luz dos olhos teus".

 

 

 

 

Na faixa 10 está "Toda hora", de Moacyr e Toninho Gerais, que coloca no disco um pouco de boemia e irreverência: "Toda hora alguém me chama pra beber/ Toda hora alguém me chama pra zoar/Por que ninguém chama pra benzer?/Por que ninguém me chama pra rezar?".

"Vai que vai", na faixa 11, é um lindo samba de Moa e João Martins. Faz a esperança sair das cordas, da pele dos instrumentos e abraçar quem dança em roda: "Vai que um dia eu

 

viro moda/Vai que a toda hora, em qualquer roda/ Toca aquela samba que eu fiz pra ti/ Vai que rolar, vai que embala, vai que embola, vai que estoura, vai que 'estóura'".

 

"No compasso do samba", de Moacyr e Sereno, fecha o disco, na faixa 12. A música foi gravada originalmente pelo grupo Dose Certa, de São Paulo, em 2012. No disco do Samba do Trabalhador, todos os cantores da roda participam. Dá gosto de ouvir: "Tenho fé nos tambores/Sou de todas as cores/Coração e peito aberto/ Sem perder o compasso do samba". E tudo isso com o som do sax soprano de Carlos Malta, mais uma grande participação especial do disco.

 

A canção parece encerrar o CD recorrendo à religiosidade que abre o álbum. É que diz: "Vou pedir proteção à mãe guerreira/Ilumina minha estrada/Eu canto/ Eu não tô de brincadeira".

 

Mas, neste caso, a mãe guerreira é a música. Aliás, faz tempo que esse ser maior ouviu as preces dos músicos que dão vida e ritmo às segundas-feiras cariocas. Viva o Samba do Trabalhador, um quilombo brasileiro! 

 

Daniel Brunet